Romance de Dubrovnik

São estas casas de cinza
De cinza petrificada
É como se aqui a vida
tivesse jogado às cartas
e só a morte saíra
ganhando em cada jogada
É esta rua comprida
mas que se chama Platza
(embora em eslava grafia
se escreva apenas Placa)
e que na Ragusa antiga
já dois mundos separava
De um lado terra latina
e do outro terra bárbara
São as verdes gelosias
são as muralhas douradas
a segredarem que a vida
se inda quisesse ganhava
É agora ao meio-dia
a Porta Pile empilhada
E são cachos de turistas
trepando pelas muralhas
tirando fotografias
contudo não vendo nada
São fileiras de boutiques
São cafés sob as arcadas
É tudo a fingir que a vida
não se dá por derrotada
É no porto a maresia
quando mais avança a tarde
incrustada em cada esquina
suspensa de cada iate
Mas das naves bizantinas
é que ela sente saudades
e das galeras esguias
que Veneza lhe enviava
se bem que tal nostalgia
inda hoje a sobressalte
Nenhum sabor tem a vida
se a morte a não acicata
E são argolas vazias
as que há no porto à entrada
e de onde outrora pendiam
correntes sempre de guarda
Quem aliás adivinha
as marítimas estradas
que deste porto saíam
que neste nó se cruzavam
Com certeza agora vivem
na tinta azul de outros mapas
Ou permanecem cativas
Ou ficaram bloqueadas
São em redor tantas ilhas
tanta rocha tanta escarpa
tantas flutuantes ravinas
Mas quando a noite se abate
não são mais do que faíscas
no mar de prata lavrada
E já a Lua surgia
na sua rica dalmática
Nem mais a preceito vinha
do que no céu da Dalmácia
Será que o fulgor da vida
vem da morte iluminada
Subo ao monte Zarkovica
(Na língua serbo-croata
deve ler-se Djarkovitza)
e à sombra desta latada
bebo um copo de mastika
olho de novo a cidade
Ó memória empedernida
de uma divina morada
Ó ferradura de cinza
de algum cavalo com asas
Ó mediterrânea figa
mais propriamente adriática
que foi feita por Posídon
e no litoral deixada
O que a morte à vida ensina
através dos deuses passa
Mas não é só nas ruínas
que fica a sua pegada

David Mourão Ferreira

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Inconvenientes en los servicios publicos

Vea lo que pasa cuando se confía en los cronopios. Apenas lo habían nombrado Director General de Radiodifusión, este cronopio llamó a unos traductores de la calle San Martín y les hizo traducir todos los textos, avisos y canciones al rumano, lengua no muy popular en la Argentina.

A las ocho de la mañana los famas empezaron a encender sus receptores, deseosos de escuchar los boletines así como los anuncios del Geniol y del Aceite Cocinero que es de todos el primero.

Y los escucharon, pero en rumano, de modo que solamente entendían la marca del producto. Profundamente asombrados, los famas sacudían los receptores pero todo seguía en rumano, hasta el tango Esta noche me emborracho, y el teléfono de la Dirección General de Radiodifusión estaba atendido por una señorita que contestaba en rumano a las clamorosas reclamaciones, con lo cual se fomentaba una confusión padre.

Enterado de esto el Superior Gobierno mandó fusilar al cronopio que así mancillaba las tradiciones de la patria. Por desgracia el pelotón estaba formado por cronopios conscriptos, que en vez de tirar sobre el ex Director General lo hicieron sobre la muchedumbre congregada en la Plaza de Mayo, con tan buena puntería que bajaron a seis of oficiales de marina y a un farmacéutico. Acudió un pelotón de famas, el cronopio fue debidamente fusilado, y en su reemplazo se designó a un distinguido autor de canciones folklóricas y de un ensayo sobre la materia gris. Este fama restableció el idioma nacional en la radiotelefonía, pero pasó que los famas habían perdido la confianza y casi no encendían los receptores. Muchos famas, pesimistas por naturaleza, habían comprado diccionarios y manuales de rumano, así como vidas del rey Carol y de la señora Lupescu. El rumano se puso de moda a pesar de la cólera del Superior Gobierno, y a la tumba del cronopio iban furtivamente delegaciones que dejaban caer sus lágrimas y sus tarjetas donde proliferaban nombres conocidos en Bucarest, ciudad de filatelistas y atentados.

Julio Cortázar

Maquiavel

 

 

Maquiavel XVII. DA CRUELDADE E DA CLEMÊNCIA E SE VALE MAIS SER
SER AMADO QUE TEMIDO, OU TEMIDO QUE AMADO

Descendo às demais qualidades que alegámos antes, digo que todo o príncipe deve desejar ser tido por piedoso e não por cruel. No entanto deve ter cuidado em não usar mal desta piedade. César Bórgia era tido por cruel e todavia essa sua crueldade organizou a Romanha, uniu-a, restituiu-lhe a paz e a fé. O qual se bem se considera ver-se-á que ele foi muito mais clemente que o povo florentino, que, para não passar por cruel, deixou destruir Pistóia 1. Portanto um príncipe deve fazer pouco caso da fama de cruel a fim de conservar os seus súbditos unidos e fiéis, porque com pouquíssimos exemplos será mais piedoso que aqueles que, por demasiada piedade, deixam prosseguir as desordens de que nascem mortes ou rapinas: porque estas ofendem a todos ao passo que as penas infligidas pelo príncipe ofendem um particular. E, entre todos os príncipes, o príncipe novo não pode libertar-se do nome de cruel, por se encontrarem os Estados novos cheios de perigos. Assim Virgílio, pela boca de Digo, diz

Res dura et regni novitas me talia cogunt Moliri, et late fines custode tueri.

 

Contudo, deve ser prudente no crer e no agir, não ter medo de si mesmo; deve proceder dum modo temperado, com prudência e humanidade; que a demasiada confiança não o faça incauto e a demasiada desconfiança o não torne intolerável.

Nasce daqui uma questão: se vale mais ser amado que temido ou temido que amado. Responde-se que ambas as coisas seriam de desejar; mas porque é difícil juntá-las, é muito mais seguro ser temido que amado, quando haja de faltar uma das duas. Porque dos homens se pode dizer duma maneira geral, que são ingratos, volúveis, simuladores, covardes e ávidos de lucro e enquanto lhes fazes bem são inteiramente teus, oferecem-te o sangue, os bens, a vida e os filhos quando, como acima disse, o perigo está longe; mas quando Ale chega, revoltam-se. E perde-se aquele príncipe que por ter acreditado as suas palavras se encontra nu de qualquer outra defesa; porque as amizades que se adquirem a preço e não por grandeza ou nobreza de alma, compram-se, mas não se possuem e no momento oportuno não se podem empregar. Os homens têm menor escrúpulo em ofender um que se faz amar, do que um que se faz temer, porque o amor está unido com o vínculo da obrigação o qual, por os homens serem maus, se parte na primeira ocasião em que surja o interesse, mas o temor é sustentado pelo medo do castigo o qual nunca se perde. Deve, todavia, o príncipe fazer-se temer de modo que, se não adquire amizade, evite ser odiado, porque pode muito bem ser ao mesmo tempo temido e não odiado; o que sempre conseguirá desde que respeite os bens dos seus concidadãos e dos seus súbditos e a honra das suas mulheres; e quando se veja obrigado a proceder contra o sangue dalgum, não o fará sem justificação conveniente e causa manifesta; mas sobretudo não tocar na propriedade alheia, porque os homens esquecem mais depressa a morte do pai que a perda do património. E depois, não faltam nunca motivos para apoderar-se do alheio e sempre aquele que começa a viver da rapina encontra razões para apoderar-se do que é dos outros, ao passo que as ocasiões de fazer correr sangue são mais raras e faltam mais amiúde.

Mas quando um príncipe está com os exércitos e tem uma multidão de soldados sob o seu comando, então é de todo necessário que não se importe de passar por cruel; porque sem esta fama não se mantém um exército unido, nem disposto a qualquer feito. Entre as admiráveis acções de Aníbal aponta-se a de que, tendo um exército, composto de gentes diversas, militando em terras estranhas, nunca viu que surgisse qualquer dissensão, nem entre si, nem contra o príncipe, e tanto na boa como na má fortuna. O qual só pode resultar da sua desumana crueldade, que, junta às suas infinitas virtudes, o tornou sempre, aos olhos dos seus soldados, venerado e terrível; e sem ela as demais virtudes não bastavam para aquele efeito. No entanto, há escritores pouco judiciosos que por um lado admiram os seus feitos e por outro condenam a principal razão deles.

E que é verdade que as outras virtudes não são o suficiente, pode ver-se em Cipião, exemplo raro não só no seu como em todos os tempos, cujos exércitos se revoltaram em Espanha. E isto resultou apenas da sua demasiada indulgência que deu aos seus soldados mais liberdades do que convinha à disciplina militar: defeito que lhe lançou em cara e em pleno Senado, Fábio Máximo, chamando-lhe corruptor da milícia romana. Um legado de Cipião destruiu os locrenses e ele nem os vingou nem corrigiu a insolência do legado, o que proveio da sua natural bondade; de tal sorte que, querendo alguém desculpá-lo no Senado, disse que havia muitos homens que sabiam melhor não errar do que corrigir os erros dos outros. Este excesso de indulgência teria com o tempo obscurecido a reputação e a glória de Cipião, se ele tivesse perseverado no comando com aquele natural; mas estando sob o governo do Senado, esse seu defeito não somente ficou oculto como até lhe deu glória.

Concluo, portanto, voltando à primeira questão, que amando os homens a seu bel prazer e temendo, pelo contrário, a bel prazer de quem os governa, deve o príncipe prudente basear-se no que é seu, não no que é dos outros; e deve apenas evitar o ódio, como se disse.

1. Cidade da Toscânia, antiga cidade fortificada construída sobre a cidade romana de Pistoriae, na Idade Média, as lutas políticas entre Guelfos e Gibelinos enfraqueceram-na, tendo sido conquistada por Florença em 1351.
2. «O duro estado em que meus negócios estão. / E do meu reino também a novidade. / Tais casos cruéis a fazer me obrigam / E a colocar guarnições em toda a parte.» Eneida, I, 563-564. (LINK)