Peripateticando

Não sei quantos passos dá por minuto um ministro. Provavelmente, mais do que um trabalhador corrente. É que os ministros pensam muito e pensa-se melhor andando, peripateticamente, exercitantemente; ministro que anda pouco é, normalmente, calão: daí que seja um lento (ou parco) pensador. E o que decorre?  Decorre que se para agir há que pensar (condição necessária mas não suficiente), os pouco andantes ministros – que já se viu pouco pensarem – pouco actuantes serão, além de calões da racionalidade.

Vem isto a propósito de ser amigo de um ministro peripateticamente nulo mas, curiosamente, de pensamento elaborado e accão eficiente e ponderada. Álmoçávamos com frequência quando ainda era um cidadão comum. Deixei depois de o ver: o tempo ministerial impedia hábitos de uma velha amizade, o que compreendi sem acrimónia.

Mas um dia telefonou-me:- Podemos almoçar amanhã? Alvoraçado, positivei. No dia seguinte, sentados á mesa do “Polícia” dessossando diligentemente um linguado grelhado, atacou: Sabes, estou mudando literalmente de ritmo. E estou preocupado: É que passei a pensar andando – comprei mesmo uma esteira rolante para o gabinete para facilitar as coisas. – E então? –Tudo piorou do lado do intelecto e da capacidade decisória: penso menos e pior; hesito mais e, quando finalmente decido, faço-o imponderadamente. Que me aconselhas? Estarrecido, pensei um pouco (com dificuldade uma vez que estava sentado) e atirei-lhe: – Acho que deves voltar ao esquema antigo; um ministro TEM de pensar bem, depressa e agir em conformidade. Com ar estranhamente contrariado, ficou pensativo e disse-me: – Vamos ver...
Levantou-se afobado, e saíu, sem fruta nem café.

No dia seguinte, numa curta declaração à Comunicação Social, deu a conhecer a sua demssão, fundamentada, disse, numa “inamovível vontade de mudar de vida“. E tansformou-se num razoável, diligente e sistemático maratonista.

Que pensaria Aristóteles de tudo isto? Fui andando para casa. Já na sala, fui-me aos CDs, escolhi um remaster de Carlos Gardel e atribui-lhe um modesto volume sonoro. Mesmo assim, fartei-me de dar à perna e de pensar.

Não há melhor parceria que Gardel e Aristóteles.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s